sábado, 22 de dezembro de 2007

Férias...

Quantas páginas tem um livro que se vai escrevendo a ele próprio? E quanto tempo demoram a ler essas páginas? Já escrevi muito, talvez demais sobre o que tenho para dizer hoje, ontem e amanhã – sempre. Conheço poucas palavras e começam a faltar novas formas de dizer o mesmo porque não quero dizer outra coisa. Quantas páginas caberão ainda neste "Um Vazio...repleto de Sentires...? Não sei...
É com o transbordar de "Um Vazio Repleto de Sentires" que faço uma pausa, mas prometo voltar um dia.
A todos, o meu muito obrigada

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Aquele olhar...

Praticar o voluntariado pelas noites, distribuir roupa e comida por entre os sem abrigo. Realidades duras que fazem parte do mosaico desta cidade. Os voluntários não são super-heróis, apenas pessoas normais, que a troco de nada, abdicam de parte do seu tempo para fazerem aquilo que gostam: Ajudar quem precisa. Sem fatos à prova de bala ou capas voadoras, apenas com o espírito fraterno e a boa vontade.
Somos adeptos cegos de duas regras de vida em sociedade: habitar e trabalhar. Repare-se naqueles olhares perdidos, um pouco envergonhados. Aqueles olhares corajosamente assumidos, gritando ajudem-me, sussurrando já não há salvação. Aqueles olhares tristemente tão longe, tão desesperados e outrora brilhantes como os de qualquer criança. Será que um dia, juntos, conseguiremos trazer algum deles de novo da desgraça para a ventura? Algumas instituições tratam das suas necessidades básicas, mas o nosso desafio será sempre maior: reconstruir o ser humano e dar-lhe as ferramentas que o possam sentir-se novamente útil para a sociedade? Desafio ou apenas sonho? Não sei...sei que é assustador ver tantos "nós" por aí abandonados, abandonados por si próprios ao desespero!...sem sequer terem forças para levantar a cabeça... sabendo da existência de estrelas por lembranças remotas!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Cabaz de Natal...

Desculpem a indignação, mas penso que o povo português não precisa que a televisão lhes diga aquilo que toda a gente sabe, que o custo de vida está quase, e em alguns casos sem o quase, insuportável ... Pergunto-me porquê a parafernália de notícias, simulações, entrevistas e afins sobre o custo de vida e os gastos nesta quadra natalícia ... Se fosse uma notícia de que os portugueses se juntaram para boicotar o consumo como forma de protesto ... sim, veria alguma utilidade na notícia ... agora para vir noticiar e aumentar a ideia de crise, de negativismo perante o inevitável, peço desculpa, mas já todos a sentimos na pele !!
Somos por definição um povo de brandos costumes, eu pergunto-me: até quando? Em análises comparativas noutros países da UE, e não falando dos que tem uma economia equilibrada, mas em termos medianos, o salário mínimo nacional serve para cobrir a despesa com um cabaz de compras razoável para uma família de 4 a 6 pessoas, crianças incluídas. Dá e ainda sobra para as despesas domésticas: água, luz, gás etc. Em Portugal, quem conseguir um cabaz de compras razoável com o nosso SMN deve ser uma de duas coisas: ou mágico ou dono de supermercado, em que o salário mínimo é meramente ilusório.
Costumo dizer que há limites para tudo ... mas a cada passo descubro que o que eu pensava ser um limite, é apenas uma barreira ... facilmente transposta perante a inactividade dos consumidores !!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Feliz Natal...

Em Portugal, a tradição repete-se um pouco por todo o país, embora nas grandes cidades tudo se passe numa atmosfera essencialmente cosmopolita. As ruas iluminam-se de lâmpadas translúcidas e cintilantes. Dir-se-ia que as luzes trémulas aquecem os corações mais cépticos e solitários.
No dia vinte e quatro ao final da tarde, as famílias começam a reunir-se. Alguns deixam as cidades e partem para o campo. Outros atravessam o mundo para voltar ao seu país, por poucas horas. Fazem-no com a esperança de reviver lembranças de uma vida.
Sensivelmente por volta das vinte e uma horas, a grande família reencontra-se à mesa: bombons de cores e sabores variados para os mais pequenos, frutos secos e cristalizados para os mais crescidos.
Come-se o tradicional «Bacalhau à Portuguesa»: bacalhau cozido, batatas, couve portuguesa, grelos e ovos. Tudo, acompanhado generosamente pelo bom azeite.
Chega então a sobremesa! Uma enorme mesa, pródiga das mais belas iguarias da doçaria portuguesa: rabanadas, aletria polvilhada e aromatizada com canela, farofas, fios de ovos, sonhos, pudim francês...
O célebre Bolo-Rei partilha desta tradição e os mais velhos e apreciadores acompanham-no com um cálice de perfumado vinho do Porto.
À meia-noite, tocam à porta... é o Pai Natal -
um familiar disfarçado por trás de uma longa barba branca e vestido a rigor - faz a sua entrada, soltando o tradicional e esfuziante:
- Ho! Ho! Ho!
Os miúdos despertam, e enchem os olhos de estrelas brilhantes. Os gritos de espanto, alegria e excitação espalham-se pela casa. É o momento mais belo da noite! A hora do encantamento!!
Depois, cada um regressa a suas casas...
A mesa deixa-se posta e guarnecida. O frio gela... mas as mãos aquecem nos afectos e os olhos transformam-se em estrelas tremulares de mil tons e transparências de cristais.

Com bacalhau ou sem ele, assim deveriam ser o 364 ou 365 dias do ano, para toda a humanidade.



NATAL...MOMENTO IDEAL?

"Um caminho, Meu estilo, Um destino, Qualquer desvio. É Natal!!!! Dizem que é o momento ideal. Ideal para o quê? Ideal para quem? Se pensarmos bem... O que seria o ideal? Para mim o ideal poderia ser fatal. Para muitos poderia ser o de sempre ou mesmo o inesperado. Natural seria sim, ninguém viver esse momento como o especial. Porque o dia-a-dia é tão humanamente desigual... Desmantela sonhos, cria ilusões, sufoca por tantas ironias... E as covardias??? Mesmo assim...dizem que este momento é o ideal... E como cada um dos humanos sabe do seu ideal, espero que cada um o tenha de Forma branda, de forma prazerosa, de forma simples e singela!Que todos possam por esse instante passar sem se amargurar ao perceber que foi apenas mais um Natal!!!!! "


Christina Delgado

Desejo a todos: Um Feliz Natal.

domingo, 16 de dezembro de 2007

E(ternamente)...hoje...

Amanhã? Sei lá. Olho as horas do presente como o agora que são, não invento o amanhã, porque amanhã é longe demais e não sei se lá chego. Para que hei-de perder o momento a pensar numa ideia concebida como uma medida de tempo? Sonhar não é imaginar amanhã, não pode ser, seria fácil demais, seria fugir a hoje e assim perder o instante real. Prefiro sonhar o presente e fazê-lo acontecer, construir cada segundo com cuidado e com uma vontade que escapa ao sentido dos ponteiros que medem os dias. Sonho o que existo em tempo real, sonho cumprir-me em cada minuto de hoje. A "eternidade" e o "sempre"...é hoje...Sei lá se existe mais alguma coisa para além do dia de hoje? Enquanto amanhã não chega por que não viver a vida num só dia?
"Passado e futuro não são nada só o presente é infinito"
David Mourão Ferreira


Preciso de ti...

Existem coisas que são demasiado grandiosas para serem ignoradas. A morte é uma delas. Quando chega é sempre devastador por muito avisadas que as pessoas estejam.
A morte nunca me meteu medo... a minha não...Mas a ausência dos que amo apavora-me... E comigo estão todos os humanos que amam e têm medo de serem privados dos seus entes queridos.
Nunca se prepara ninguém para a evidência estonteante da morte. Ela cobre-nos de um silêncio perturbador, que grita, que rompe, que rasga todos os possíveis esgares de sorrisos. Eu quero falar de ti, dos teus sorrisos e da tua filha. Eu imagino ouvir a tua voz mas só recebo silêncio, esse silêncio que nunca me cabe nas mãos.
Pensei que o tempo encarregar-se-ia de apagar qualquer vestígio nobre que possa ter ficado na minha memória. Mas não...O mais horrendo não é a morte... é a dor... A dor que devassa...
Há neste momento um freio de dor que amarra todas as palavras e me inunda de lágrimas.Espero que seja onde for que a tua alma repouse haja paz... Aquela paz que transmitias aos outros.
Choro, mas não devo...só posso sorrir... Sorrir porque acredito que viverás para sempre em nós...E nas memórias amarelas que plantamos no chão.
Preciso de ti...Minha Mãe, preciso do teu abraço.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Natal...

Esquecidos por uma sociedade consumista, os sem abrigo encontram no Natal com os Sem Abrigo uma forma de enfrentar a miséria. Vêm de todos os cantos da cidade e trazem na bagagem histórias de vida que os amarguram até hoje.
Por diferentes razões, a vida pregou-lhes uma partida e agora tentam sobreviver num estranho modo de vida. Muitas pessoas não imaginam as privações, decepções e tristezas que abalaram a confiança de gente sem tecto, que a determinada altura da vida ficaram também sem chão.
O mesmo frio, a mesma solidão, no Porto como em Lisboa, assim como em qualquer parte do mundo. É com desconforto que tropeçamos nos sem abrigo das grandes cidades. Pessoas que perderam toda a sua dignidade social, escondidas entre trapos e cartões. Outras há, porém, que carregam na alma espezinhada, uma réstia de dignidade que as prende, por um fio ténue, a uma vida de cabeça erguida, embora miserável. É a pobreza envergonhada. São cerca de 200 000, para as estatísticas.
Não há ricos e pobres por decisão divina. A exclusão não é uma coisa natural. Nada disso vem na matriz genética, seja de quem for. Não é verdade que sejamos todos iguais perante as oportunidades, que a sociedade oferece aos seus constituintes. A sociedade não é justa. O direito do mais forte, não é um direito. É uma dominação. Um abuso.
“E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda? Isso explica, talvez, as coisas deste mundo”.Carlos Drummond de Andrade
Está na altura de emendarmos a mão.
É bom saber que as pessoas começaram a sentir de um modo muito mais vivo que os que se encontram caídas nas bermas são pessoas iguais a elas.

“Só alcança perfeita liberdade e transcendente serenidade, aquele que, sem interesse e no espírito de renúncia, executa o seu trabalho e não deseja recompensa alguma.” Bhagavad Gita.
A Ti, o meu muito obrigada, por este excerto que me enviaste, dedico-o e partilho com todos os que, como eu, fazem voluntariado.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Tempo...

Se entre ontem e amanhã não houvesse a fragilidade das horas que nos medem o respirar, seria mais fácil viver o tempo que passa sem nos apercebermos da sua irreversibilidade. Viveríamos livres e inconsequentes, provavelmente felizes. Mas os dias passam e, sem que o possamos evitar, passam também anos. E envelhecemos. Umas vezes de fora para dentro, outras vezes de dentro para fora. E há um momento em que, finalmente, percebemos que não podemos perder mais tempo com faltas de assunto e coisas poucas e sem importância quando há uma falta de nós por resolver.
E nesse instante, o tempo começa a passar mais depressa e nessa contagem acelerada dos dias, tomamos consciência de nós, do que queremos, do que não temos, do que ainda nos falta fazer. E então compreendemos que não podemos desperdiçar-nos mais, porque o tempo é impiedoso, não pára, não espera, esgota-se, e sem que demos por isso pode ser demasiado tarde para viver o tanto que nos falta. E quando olhamos para trás o que nos sobra daquilo que quisemos ser e viver? E quanto tempo teremos ainda para sermos o que não cumprimos? O dia depois de amanhã é uma incógnita, amanhã pode nem chegar a ser. Envelhecemos sem reparar que não temos muito tempo para tentar ser felizes. Passamos pelos dias como se tivéssemos a eternidade por nossa conta, sem a responsabilidade de fazer de cada dia um tempo único, cheio, bem vivido.
Amanhã quando acordar estarei um dia mais velha, tenho menos um dia de vida ou mais uma oportunidade de me resgatar e viver mais perto de mim?...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Equação possível e determinada...

Ás vezes, é reconfortante encontrar nas ciências exactas princípios que validam a nossa observação do mundo e que nos reasseguram de coisas que pensamos de forma emocional.
Ainda bem que existem pessoas excepcionalmente inteligentes que perdem vidas inteiras em busca de uma equação matemática que nos descomplica a vida. Que seria de nós sem esses génios loucos? ;o)))

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Dia Internacional do Deficiente Físico


Porque se comemorou ontem o Dia Internacional do Deficiente Fisico, resolvi postar este video.
Penso, não ser necessário mais palavras.

Natal...

Infelizmente a palavra Natal não passa de um lugar comum, como os dias de "qualquer coisa" espalhados pelos 365 dias do ano.
O Natal já existia quando eu nasci. Lembro-me de ver em minha casa toda a doçaria alusiva a esta época, como nas festas de aniversário, e também presentes. A família resumia-se a cinco pessoas, o meu pai, a minha mãe, o meu mano mais velho, o outro meu mano, e eu. Havia em mim, algo que sempre faltou e que eu nunca entendi o quê!?! Faltou-me sempre o encanto que todos viam no Natal. Até que chegou a idade de querer saber a razão funda das coisas. Saí para a rua, onde as pessoas compravam e vendiam presentes envolvidos em papéis de muitas cores. Mas os que compravam e vendiam não souberam dizer-me o que desejavam. Falaram-me de como tinham de correr muito nessa época do ano; falaram-me de números e das poupanças que tinham feito; do seu esforço e de como a vida não estava boa para dar prendas. Nada sabiam acerca do Natal. Deixei-as nas suas absurdas correrias e continuei a procurar. Nas ruas, as luzes não passam de técnica comercial e, no fundo, tudo está muito escuro. E relembro as famílias, lembrando-me de como, em pequena, o Natal me rodeava de um vazio mesmo quando estava com os meus. E vejo como as famílias se continuam a juntar. E como continuam a caber muitos numa casa pequenina. Mas ficavam sentados, passando o tempo em frente da televisão. Há monossílabos e gritos. E compreendo agora que é apenas por hábito que muitas delas se reúnem. Parece-me que perderam o Natal, conservando somente a roupagem do Natal. É como se houvesse o embrulho bonito do presente, mas sem presente dentro.
Foi só quando já não sabia onde procurar que tive a minha resposta. Os meus passos vagabundos levaram-me até onde se juntam aqueles que sabem de dores. Aqueles que têm um sonho grande e umas mãos pequenas, e sofrem por não serem capazes de o concretizar. Há cegos e alguns que, vendo, desejavam ver de um outro modo. Não sei contar todos os casos, mas posso dizer que vejo uma oração nos lábios de cada um deles; nos olhos de cada um, uma lágrima e, simultaneamente, um brilho de esperança. E compreendi: o Natal é só de quem há muito espera. De quem ainda não se cansou de esperar. É só de quem sonhou além das coisas e se vê ainda muito longe. É de quem tem chorado. De quem olha para dentro de si mesmo e sente medo. De quem não encontrou ainda o seu consolo. O Natal existe apenas onde existe a falta. Nós, que temos tudo, que pensamos que temos tudo, sofremos da terrível pobreza de não sabermos sequer que somos pobres.
O Natal não é para nós. Ainda não somos capazes de o entender.
Terá tido esta árvore de Natal um custo elevado? Não, ora essa, que custo poderá ter dois milhões de luzinhas a consumir? Que custo poderá ter o transporte e a montagem desta mesma árvore?
Como um dia alguém escreveu: "Viva Portugal que tem a maior árvore de Natal da Europa. Viva Portugal que é apenas comparado ao Império Romano, com pão e circo, anda o povo contente."
E é ao lado desta mesma árvore, que muitos dos sem-abrigo comem a sua sopa, (muitas das vezes, a unica refeição do dia), nas bermas dos passeios.

E como diria Ary dos Santos:
Tu que dormes a noite na calçada de relento, numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento és meu irmão amigo, és meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme, numa cama de raiva com lençóis feitos de lume e sofres o Natal da solidão sem um queixume, és meu irmão amigo, és meu irmão.

Natal é em Dezembro, mas em Maio pode ser, Natal é em Setembro, é quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer, Natal é sempre o fruto que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar, tu que inventas bonecas e comboios de luar e mentes ao teu filho por não os poderes comprar, és meu irmão amigo, és meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei, fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei, pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei, és meu irmão amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro, mas em Maio pode ser, Natal é em Setembro, é quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer, Natal é sempre o fruto que há no ventre da mulher.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Parabéns...Meu Pai...

Adoro-te pai!
Que todos os homens saibam ser tão verdadeiros como tu! Que todos saibam educar, mimar e criticar nos momentos certos!
Que todos os homens saibam amar como tu!
Parabéns Meu Pai!

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Porque não?

Os sem-abrigo não se deixam caçar, nem classificar: ocupam o espaço de outra forma e muito mais passivamente o seu tempo. Nos espaços públicos, nos seus percursos, parecem dirigir-se para lado nenhum, nunca fazer nada, ou servir ninguém. Por isso, tornam-se aos olhos da maioria dos seus concidadãos um objecto estranho, de agitação radical, incómodo, em suma. Curiosamente, esta estranha inquietação desvalorizadora por parte da sociedade, começa também, cada vez mais, a ganhar espaço no campo da apreciação do comportamento das pessoas que têm um estilo de vida mais sedentário.
No entanto, uma coisa é certa. O sem-abrigo não pode continuar a ser considerado como um "corpo estranho no caminho", que está ali por acaso e que se torna necessário e urgente proteger, abrigar, ou imobilizar no espaço. O sem-abrigo tem também uma alma, quer dizer, mais prosaicamente, uma dinâmica interior, feita de recordações, de sentimentos, de desejos e mesmo de expectativas. Como cidadão, ele tem direitos, aliás, uma realidade que temos frequentemente tendência a esquecer. Ele tem o direito de utilizar os espaços públicos, de deambular nas ruas, de se sentar nos parques, de abordar e falar aos passeantes, ou de se sentar tranquilamente num estabelecimento para tomar um café.
Mas quer isto dizer que não há soluções? Que a única coisa a fazer é a aceitação das coisas tal como estão ou a frequente dádiva envergonhada. Não, claro que não. As pistas de solução existem e esperam, para serem colocadas em prática, maior dedicação e empenhamento da parte dos nossos políticos.
Entretanto, por que não começar por respeitar um pouco mais as pessoas, considerados por muitos, como "o errante, o sem-abrigo, o mendigo, o vagabundo, o sem domicílio, o marginal - variedade de termos que descrevem uma condição de vida fundada sobre a indigência, a instabilidade residencial e a exclusão". Por que não aproximarmo-nos delas, fazendo-as sentir que as consideramos mais do que um corpo vazio e sem sentido. Por que não começarmos a tratá-las como alguém que pertence à mesma sociedade, que não é uma ameaça ambulante que deve ser permanentemente punida e controlada socialmente.
Por que não ?

domingo, 25 de novembro de 2007

Fim do Banco...

A idade vai comendo a vida. Vai ratando o futuro, e nós (eles) a verem.
Acorda-se com um dia a menos, e adormece-se com um dia a mais.
O calendário vai-nos mudando o corpo. Vai-nos empurrando as costas, para a queda ser pequena.
Os velhos sabem de cor o chão. Como quem sabe que está quase a chegar lá.
Desde que perdi a minha avó, que ganhei o respeito por quem mora no terceiro andar da idade.
Perde-se para ganhar. E assim foi. Emociona-me. Que vida inteira pode ser sentada sozinha, num banco de jardim?
Com a idade, nunca escolhem o meio, sempre o fim do banco.
Em crianças, ter-se-iam sentado na outra ponta? E deixam-se estar.
Respiram como podem. Os olhos já não procuram nada. Já viram tudo.
Vão guardando o passado em rugas, para libertar a cabeça.
Em que pensam? Na morte?
Os velhos não vivem. Deixam-se viver.
Os filhos já tem a vida deles, não os querem.Tem de ir viajar e fazer compras para o jantar."O pai tem estado bem? Então vá, um beijinho." Picaram o ponto, e para eles está feito.
Os novos choram com o corpo todo, gritam e fazem caras de quem sofre.
Os velhos choram só com os olhos, que o resto não se vê.
E assim o fazem, no fim do telefonema.
Ninguém os quer com as doenças cheias de idade. As mãos da idade cheiram a tudo, com as veias cansadas de mostrar o sangue a toda a gente. As pernas vão perdendo caminho. Os braços deixam de abraçar.
O coração começa a falhar, já bateu demais mesmo para quem amou pouco. Vai-se esquecendo de bater. E uma noite, sem avisar, desaprende. Desliga os olhos e atira o corpo para o fim.
Ocupam agora o banco todo. Do principio ao fim, todo ele é corpo.
E os filhos, cansados de telefonar, resmungam.
Morreram oitenta e dois anos, e nem mais um dia.
A cidade não pára, o mundo não interrompe, nada.
Os filhos enterram vinte anos, e guardam os outros sessenta e dois.
Os últimos vinte davam trabalho e de pouco valiam. Não tem vagar para os guardar.
Mas de hoje em diante, esses vinte vão acordá-los todos os dias.
Até se deitarem sozinhos no banco que os vai deitar.
Bruno Nogueira

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Príncipe Encantador...

Ainda há príncipes encantados.
Se está à espera do Dia dos Namorados para arranjar um, não fique sentada. Faça como uma amiga minha que cada vez que sai do carro, vira o retrovisor para o lado do condutor, retoca o batom e diz com uma convicção demolidora o Príncipe pode estar em qualquer lado. E pode mesmo. É uma questão de fé, totalmente arbitrária e alietória, mas pode acontecer. Até porque nós, os extraordinários, somos poucos, mas andamos por aí. Isto é o que diz outro amigo meu que por acaso é mesmo extraordinário e já encontrou a pessoa certa, pelo menos por enquanto. Foi ele que um dia me explicou o que era esse maravilhoso conceito da pessoa certa.
A pessoa certa não é a mais inteligente, a que nos escreve as mais belas cartas de amor, a que nos jura a paixão maior ou nos diz que nunca se sentiu assim. Nem a que se muda para nossa casa ao fim de três semanas e planeia viagens idílicas ao outro lado do mundo. A pessoa certa é aquela que quer mesmo ficar connosco. Tão simples quanto isto. Às vezes demasiado simples para as pessoas perceberem. O que transforma um homem vulgar no nosso príncipe é ele querer ser o homem da nossa vida. E há alguns que ainda querem.
Os verdadeiros Príncipes Encantados não têm pressa na conquista porque como já escolheram com quem querem passar o resto da vida, têm todo o tempo do mundo; levam-nos a comer um prego no prato porque sabem que no futuro nos vão levar à Tour d’Argent; ouvem-nos com atenção e carinho porque se querem habituar à música da nossa voz e entram-nos no coração bem devagar, respeitando o silêncio das cicatrizes que só o tempo pode apagar. Podem parecer menos empenhados ou sinceros do que os antecessores, mas aquilo a que chamamos hesitação ou timidez talvez seja apenas uma forma de precaução para terem a certeza que não se vão enganar.
O Príncipe Encantado não é o namorado mais romântico do mundo que nos cobre de beijos; é o homem que nos puxa o lençol para os ombros a meio da noite para não nos constiparmos ou se levanta às três da manhã para nos fazer um chá de limão quando estamos com dores de garganta. Não é o que nos compra discos românticos e nos trauteia canções de amor no voice mail, é o que nos ouve falar de tudo, mesmo das coisas menos agradáveis. Não é o que diz Amo-te, mas o que sente que talvez nos possa amar para sempre. Não é o que passa metade das férias connosco e a outra metade com os amigos; é que passa de vez em quando férias com os amigos. O Príncipe que sabe o que quer, não é o melhor namorado do mundo; é o marido mais porreiro do mundo, porque não é o que olha todos os dias para nós, mas o que olha por nós todos os dias. Que tem paciência para os meus, os teus, os nossos filhos e que ainda arranja um lugar na mesa para os filhos dos outros. Que partilha a vida e vê em cada dia uma forma de se dar aos que lhe são próximos. Que ajuda os mais velhos a fazer os trabalhos de casa e põe os mais novos a dormir com uma história de encantar. Que quando está cansado fica em silêncio, mas nunca deixa de nos envolver com um sorriso. Não precisa de um carro bestial, basta-lhe uma música bestial para ouvir no carro. Pode ou não ter moto, mas tem quase sempre um cão. Gosta de ler e sai pouco à noite porque prefere ficar em casa a namorar e a ver o Zapping. Cozinha o básico, mas faz os melhores ovos mexidos do mundo e vai à padaria num feriado. O Príncipe é um Príncipe porque governa um reino, porque sabe dar e partilhar, porque ajuda, apoia e nos faz sentir que somos mesmo muito importantes.
Claro que com tantos sapos no mercado, bem vestidos, cheios de conversa e tiradas poéticas, como é que não nos enganamos?
É fácil. Primeiro, é preciso aceitar que às vezes nos enganamos mesmo. E depois, é preciso acreditar que um dia podemos ter sorte. E como o melhor de estar vivo é saber que tudo muda, um dia muda tudo e ele aparece. Depois, é só deixa-lo ficar um dia atrás do outro... e se for mesmo ele, fica.
Margarida Rebelo Pinto
_________________________________________ Não acredito nesta predestinação. O que há, são encontros e desencontros na vida e, portanto, se em cada um desses momentos encontramos alguém com quem partilhamos interesses, e com quem existe uma química muito forte, esse é o nosso par ideal nesse preciso momento. Mas este é só o princípio de um longo percurso a percorrer. Dos contos de fadas para a vida real, eles não vivem felizes para sempre. A vida é um desafio constante onde é preciso exercitar e provar a capacidade de determinação e resistência, há que construir e refazer. Muitas vezes, é precisamente na passagem do amor-paixão para o amor-companheiro, o qual exige muita dedicação, empenho e investimento, que o par ideal e o amor perfeito deixam de o ser. O sonho pode cair por terra pelo facto de se descobrir que, afinal, o outro não era o que aparentava ser, ou não corresponde à imagem idealizada que não passou de uma projecção de desejos. Quando as pessoas vêem as suas expectativas frustradas, e isso acontece muitas vezes, o príncipe deixa de o ser. As pessoas por vezes não vêem que o problema pode estar na sua própria capacidade para amar, colocando-o no outro. A maioria das pessoas encara o problema do amor como uma questão de se ser amado, e não de amar, da capacidade de amar. Amar e ser amado requer coragem, a coragem de acreditar em certos valores e de arriscar e apostar tudo nesses valores. Amar significa comprometer-se sem garantias. O amor é feito de intimidade, compromisso e amizade. Seria natural concluir que a relação perfeita reúne estes três elementos de forma equilibrada, mas ao que parece não é assim. O importante, é que ela seja confortável para ambos. De amor em desamor, de encanto em desencanto, a verdade é que a procura do amor perfeito, do homem ideal, nunca acaba. Segredo bem guardado, o sonho de encontrar o príncipe encantado continua sempre presente, mesmo quando o pragmatismo e o medo da solidão precipitam outras escolhas na esfera do amor.
Segundo Margarida Rebelo Pinto, "O que transforma um homem vulgar no nosso Príncipe, é ele querer ser o homem da nossa vida...", O Príncipe que sabe o que quer, não é o melhor namorado do mundo; é o marido mais porreiro do mundo...", com o que não concordo, não tem que ser obrigatoriamente o marido, não tem que viver debaixo do mesmo tecto.
Concluo dizendo: Não procurem o príncipe encantado, mas sim, o príncipe encantador e deixem-se encantar.